O lado podre da F1 – Quando afinal a Red Bull não te dá asas.

O que nos leva a gostar de um desporto tão injusto?

Gostar da F1 não é fácil. É um desporto em mudanças constantes, muitas vezes difíceis de entender, os horários de algumas corridas não são de todo apelativos, é um desporto que muitas vezes levou a vida de grandes talentos. Vários são os motivos pelos quais seria fácil olhar de lado para a F1. Mas aprendemos a gostar deste desporto. Vimos muitas equipas começarem a vencer e a fazer história, vimos muitos pilotos que deixaram uma, marca muitas vezes profunda. Vimos o talento de Senna, a inteligência de Prost, a garra de Mansel, a superação de Lauda, o espírito rebelde de Hunt, a herança de McLaren, a tenacidade de Williams. A evolução tecnológica, a táctica na corrida, o choque de egos dos pilotos. Tudo isto nos leva a esquecer o lado menos positivo da F1 e a adorar este desporto.

Ontem no entanto fomos confrontados com uma noticia que nos lembrou, e de que maneira, o lado negativo e podre do grande circo.
Época difícil do Formiga.
Todos os portugueses ficaram entusiasmados quando Ricciardo foi anunciado como piloto Red Bull, pois as portas da F1 ficavam abertas para a nossa grande esperança…António Félix da Costa. O ano que seria decisivo para o nosso Formiga não correu de feição. Os azares sucederam-se, os erros da equipa na afinação do carro também tiveram um peso importante. E toda a pressão em volta de Félix da Costa fez com que não estivesse brilhante como no ano passado. Esteve mal, perguntarão os mais desatentos? Não, não esteve mal. Acabou o campeonato em 3º lugar, atrás de dois grandes talentos, que ao contrário dele, beneficiaram de estruturas sólidas e mais eficazes e não foram tão fustigados pelo azar.
Mas mesmo assim tínhamos esperança que fosse o português o dono do lugar da Toro Rosso. No inicio do ano o director da Red Bull disse que não era obrigatório para Félix vencer o campeonato. Teria apenas de mostrar talento e regularidade.
Embora não tão regular como certamente gostaria, o Formiga deu provas, várias vezes, do seu talento e não é preciso ser um “expert” em automobilismo para o ver.
Mas muitas vozes se levantaram contra o português. Falou-se inicialmente em Sainz Jr. que acabado de chegar ao WSR já tinha quem dissesse que o lugar dele era na F1. Os entraves eram muitos à subida de Félix à F1. A certa altura desconfiávamos que seria muito difícil, tal era o burburinho. Mantivemos no entanto a esperança que o talento do português fosse recompensado. Mas a Red Bull foi pela opção que mais surpreendeu e a menos lógica de todas.
Foi buscar Kvyat ao GP3. Segundo Tost, director da Toro Rosso, o russo tem palmarés, surpreendeu pelo seu talento no teste em Siverstone, e é uma mistura de Kimi Raikkonen e Fernando Alonso.
Félix da Costa vs Kvyat
Quanto ao talento não vou questionar. Nunca acompanhei o russo e só o conheço de nome, como tal não farei juízos de valor sobre algo que não vi. Mas daí a ser uma mistura de dois dos melhores pilotos dos últimos 10 anos… vamos lá com calma.
Em relação ao palmarés do russo é mais fácil de avaliar. Compete desde 2010 tendo vencido apenas em 2012 a Formula Renault 2.0 Alps. Félix da Costa compete desde 2008, venceu a Formula Renault 2.0 Nec, venceu o Grande Prémio de Macau e foi eleito em 2012 o 8º melhor piloto do mundo pela Autosport britânica (o que equivale dizer a Bíblia do desporto motorizado em todo o mundo). Vou só lembrar que só na F1 há 22 pilotos. Félix da Costa ficou a frente de muitos deles, tendo ficado também à frente de muitos nomes consagrados de todas as outras categorias. Um feito notável que parece agora ser esquecido pelas chefias da sua equipa.
Vamos resumir. Foi escolhido um piloto com menos 2 anos de experiência, com um palmarés idêntico (para não dizer inferior) e que não teve metade do reconhecimento, em detrimento de um piloto já conhecido, consagrado, cujo talento já foi elogiado por varias publicações e comentadores.
A verdadeira razão da decisão?
Deixemo-nos de tretas. Félix da Costa não foi o escolhido para o lugar porque tem um handicap grave… é português. O que equivale dizer que a sua entrada na F1 não interessa. Por motivos meramente económicos. Senão vejamos, Portugal tem cerca de 10 milhões de habitantes. Desses 10 milhões se 10% (e estou a ser optimista) forem adeptos de F1 dá 1 milhão de adeptos. A Rússia tem 142 milhões de habitantes. Se os mesmos 10% forem fãs de F1 dá 14 milhões de adeptos. Logo a nível comercial é fácil fazer a escolha.
O que me leva a perguntar, quem terá pedido a entrada do russo? A Red Bull tem um mercado para explorar e a F1 seria uma boa porta de entrada. Mas para além da Red Bull há outro interessado. Bernie Ecclestone, que detém os direitos comerciais da F1 e que por sinal se dá muito bem com as chefias da Red Bull. Poderá ter sido ele também a pedir um russo para a Toro Rosso de forma a rentabilizar o investimento feito em Sochi que vai receber o GP da Rússia para o próximo ano. Não terá o “tio” Bernie puxado os cordelinhos para ter mais um russo na F1? Não afirmo nada mas deixo a questão no ar para quem quiser comentar.
Will Buxton, repórter da NBC nos Grandes Prémios e comentador das corridas da GP2 e GP3, escreve: “foi uma decisão disparatada da Red Bull, sem qualquer tipo de lógica e que desperdiça um grande talento. (António Félix) Da Costa é um dos maiores talentos que vi na última década e tem as qualidades que nos fazem saltar o coração. Da Costa era o melhor preparado, mas a “lógica” de Marko venceu”.(retirado da página do Facebook Formula 1 Portugal)
Outros comentários há na net que me vou escusar de colocar aqui mas que iremos colocando na nossa página do Facebook.
Conclusões.
Conclusões sobre tudo isto? A primeira e a mais flagrante, dado as reacções dos media, é que Félix da Costa é um talento tido em conta por muita gente e merecia, mais que ninguém esta oportunidade. Muita gente o diz e pessoas mais qualificadas e imparciais.
A segunda é que o projecto Red Bull Junior Team se tornou numa anedota. Félix dizia no inicio que na Red Bull não precisava de investidores. Bastava mostrar talento e o seu assento na F1 estaria garantido. Foi iludido, enganado, pois mostrou talento de sobra (tomara muita gente que passou na F1 ter um dedo mindinho do nosso Formiga) e não teve o lugar prometido. Afinal não é só o talento que conta e se calhar em certas ocasiões é um factor secundário.
Qual o futuro de Félix da Costa?
É complicado, pois o tempo certo para dar o salto seria agora. Não sei até que ponto é bom manter-se na Red Bull e se a equipa lhe dará um carro para competir tal o burburinho que se está a gerar. O imperativo para o português é manter-se a competir ao mais alto nível de forma a não ser esquecido e quando abrir uma vaga na F1 ele ser chamado.
Por fim realçar a postura de Félix da Costa, que na reacção àquela que é provavelmente a  maior desilusão da sua vida , manteve uma postura digna correcta e com enorme Fair Play, para o seu companheiro de equipa, que pouca culpa tem e está a aproveitar o que lhe caiu no colo, e até para a sua equipa que lhe puxou o tapete dos pés, não mostrando ingratidão e rancor.

António Félix da Costa é um talento enorme,pelo que se diz no mundo da F1, uma excelente pessoa, de trato fácil, elogiado por todos que o conhecem e um campeão que está a passar pela maior prova de carácter que um piloto pode passar. Se os Deuses da F1 forem justos, em breve terá o seu lugar onde merece… Na Formula 1.


 Fotos:
Retiradas da internet e das páginas Potenzablogdef1 e F1RTP do facebook.
Fábio Mendes

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