Circuito de Vila Real 2014 – Entrevista a Carlos Alonso.

Carlos Alonso nos tempos da Goodsense
Com o fim-de-semana mais aguardado do ano em Vila Real à porta, e com a agitação em torno do circuito, tentamos ver as corridas do outro lado das redes. Do lado da pista, de quem se senta ao volante das máquinas e cruza as ruas da cidade em velocidades estonteantes.
Convidamos o piloto Carlos Alonso para nos dar o seu ponto de vista. O convite foi aceite prontamente e o encontro marcado no Autódromo Virtual de Vila Real. A conversa decorreu num tom bem disposto onde descobrirmos muitas histórias interessantíssimas, com boas gargalhadas à mistura.
Foi mais de 1 hora e meia de conversa que passou a correr. Deixamos aqui os principais tópicos da entrevista:
Há quanto tempo é que competes e como começou esta tua aventura?
 
Comecei em 2006 no desafio Seat que juntou 400 universitários de todo o pais que teve a fase final no autódromo do Estoril, onde cada uma das 10 universidades presentes estavam representadas por 2 pilotos. A prova estava dividida para os 1ºs e 2ºs classificados, em que eu venci a manga dos 1ºs e o André Martins venceu a manga dos 2ºs sendo a primeira vez que uma universidade teve a pontuação máxima na prova.
E depois houve logo vontade de continuar?
 
Quis continuar no mundo da velocidade e tinha um orçamento para comprar um Clio para participar no troféu, mas a minha família não tinha a tradição das corridas e não apoiou muito a ideia e como tal adiei o sonho. Entretanto em 2007, com o regresso das corridas em Vila Real, pude ver a realidade do paddock e das corridas por dentro e foi algo que me desmotivou um pouco, pois com tanta gente de qualidade a correr e com as dificuldades para entrar num mundo tão difícil, onde ajuda muito ter um nome com ligações ao desporto automóvel, pensei que talvez não compensasse o grande esforço que teria de fazer.
Carlos Alonso com Nuno Reis no autódromo de Portimão
Mas em 2010 resolvi usar o orçamento que tinha para correr em Vila Real em 2011. Para isso aluguei um radical à Martins Speed e fui fazer uma prova ao Autódromo do Algarve para testar e ver se tinha condições para ser competitivo, algo que se verificou pois fizemos um pódio, embora com poucos concorrentes .Eram mais que 3 não se preocupem ( risos).
Entretanto por um golpe de sorte comecei a trabalhar com uma empresa promotora de eventos chamada GoodSense Racing Team, cujo proprietário queria competir e me convidou para pilotar com ele. Uma vez que o proprietário tinha uma agenda preenchida houve necessidade de encontrar outro piloto e foi com ele que chegamos a liderar o campeonato em 2011. Entretanto uma série de azares com o carro e problemas no fornecimento de pneus levou a uma queda gradual até ao 3º lugar nacional, tornando-se inglório depois de liderar a prova. Fizemos também provas em Espanha onde as provas não correram tão bem.

Tinhas/tens algum piloto como referência?
 
O Francisco Carvalho ( ndr: com quem vai partilhar o carro na prova vila-realense) é sem duvida uma referência para mim, pois para além de ser um excelente piloto e muito versátil, ajudou-me muito no inicio. É um piloto muito “bravo” e continua a ser muito mais rápido do que muitos jovens, seja em que carro for. No início como ele também corria num Aston Martin era a referência que tinha para comparar os meus desempenhos e ver onde podia melhorar.
Mas as corridas são um mundo onde existe rivalidade dentro de pista mas fora das pistas. Pode-se esperar ajudas por parte dos adversários?
 
O Aston Martin que Alonso irá usar em Vila Real
Nem por isso, e até há alturas em que as dicas que se recebem não servem para ajudar, antes pelo contrário. Mas isso é justificável pois o investimento que as equipas fazem é avultado e para se chegar a um “set up” correcto por exemplo, é preciso gastar muito dinheiro. A única forma de ter retorno desse dinheiro é tendo bons resultados e como tal não se pode dar a um adversário uma informação muito concreta pois assim estamos a deitar dinheiro fora.
Mas o Francisco Carvalho por exemplo, foi sempre  muito honesto desde inicio e ajudou-me verdadeiramente e talvez por isso a amizade tenha crescido entre nós.

 

É muito difícil entrar no mundo automobilístico?

É muito difícil! Em 2011 tive a sorte de estar no momento certo, no sítio certo, correu tudo bem. Estava contente com tudo o que tinha, as oportunidades caiam-me do céu, mas se soubesse o que sei hoje, se calhar não tinha corrido em GT4 mas sim em GT3. Agora sei que teria sido possível, na altura não. É muito difícil entrar, é um desporto muito caro, é preciso haver um investimento inicial e colher mais tarde, se se colher!

Com certeza que tiveste vários momentos que te marcaram, e a primeira qualificação terá sido uma delas.Como correu?
 
Fiz essa qualificação (no Estoril) à chuva e era a primeira vez que corria com chuva e para terem uma ideia, no Estoril trava-se a cerca de 150m na primeira curva e à chuva um bocadinho antes, e nesse dia cheguei à curva a cerca de 260 Km/h e travei a 350m. Acho que o pessoal que estava no muro devia estar a pensar “Foi este que trouxemos!” (risos). Fiz o último lugar, mas em corrida já com o piso seco consegui recuperar, mas o esforço foi em vão, pois na tentativa de ultrapassar um adversário, demos um toque e saímos os dois de pista. O meu medo na altura como era a primeira prova era ter estragado o carro, algo que não se verificou com apenas um bocado de fibra partido.
Outra prova que me marcou também foi em Albacete, num fim de semana que me correu muito bem e onde consegui um ritmo superior ao do Francisco Carvalho. Foi a primeira vez que fiquei acima da minha referência. Foi um fim de semana em que entrei com tudo e correu muito bem em termos de performances pessoais. Infelizmente, como comprovado na telemetria do Aston, fiquei sem travões na última volta e acabei por bater.

O que achas do circuito de Vila Real?
É uma pista que eu gostaria muito de ter feito em ambiente de competição nas condições de  2011 ou 2012. Embora todas as pistas seja diferentes, ao nível das citadinas é claramente superior à Boavista, que embora tenha um ambiente espectacular, que tem como ponto de maior interesse a descida de Circunvalação e pouco mais, sendo o miolo pouco interessante. Em Vila Real há muitos pontos de pista técnica e o traçado tem características de um circuito. E o traçado actual não fica nada a dever ao antigo, com as melhorias de segurança. A zona que vai da MCoutinho até a rotunda do Boque, não é como no Porto em que tem recta e uma travagem para uma “esquina”. Em Vila Real é muito mais fluido e isso torna a pista muito mais interessante.

 

 

Qual é a zona do circuito que mais te atrai e onde achas que é o ponto chave do circuito onde se pode ganhar ou perder muito tempo?

A parte que mexe comigo já há muito tempo é a primeira curva depois da recta de Mateus. É o desafio de fazer a curva a fundo. Em relação à zona onde de facto se pode perder ou ganhar muito penso que são os “Esses” a seguir a Abambres e a descida de Mateus. O tempo de travagem será onde se pode ganhar ou perder bastante.

 

Ao nível do teu carro quais são as características que realças do teu Aston?

Para a classe a sua mais valia é o motor, que é dos mais potentes. É um V8, 4.7L, 430CV, enquanto os outros carros da categoria andam por volta dos 400 ou abaixo. O factor que não o favorece é o peso que anda à volta dos 1300 Kg. Mas é um carro que ao nível do retorno de imagem é claramente apelativo pois é um carro bonito e que conquista mais as pessoas.
Tirando Vila Real qual é o teu circuito nacional/internacional preferido?
 
O autódromo de Portimão é sem dúvida uma pista excelente, por ser um traçado exigente e técnico, mas tem o problema de estar no sítio errado. O Estoril é sempre especial pela história e por ter corrido e vencido lá a minha primeira prova. A nível internacional tive oportunidade de correr no circuito da Catalunha mas não o pude fazer, algo que me deixou muito triste, pois era aquele que queria fazer. Mas é muito complicado avaliar pistas sem estar lá pois é muito diferente ver na TV e estar nas pistas. Para dar um exemplo, o final da recta da meta do Estoril não conseguia ver a curva e o declive surpreendeu-me, algo que nem nas bancadas se nota muito, como tal avaliar as pistas só pelo que se vê na TV pode ser enganador.

 

O melhor carro que conduziste até hoje? E qual aquele que gostarias de ter?

O M6, pelo motor, o Gallardo Superlegera e o Panamera Turbo, que me surpreendeu pela sua qualidade. Em relação ao carro que gostaria de tertoda a gente pensa nisso quando faz o Euromilhões…  o Aventador, o 458 Italia seriam as minhas opções.
Do panorama actual há algum piloto internacional que consideres ser o melhor?
 
Alonso obviamente porque tem um nome interessante (risos). É reconhecido por todos como o piloto mais completo e que consegue sempre boas prestações.
E para o futuro o que te está reservado?
 
Tinha num passado recente pensado em alguns projectos mas que ficaram suspensos, mas há algo muito mau no desporto motorizado nacional que é a falta de definição atempada dos calendários, para conseguirmos os apoios necessários. Agora tenho vários negócios, que embora pequenos são a minha grande prioridade e que me ocupam muito tempo e uma vez que é muito difícil ser piloto profissional em Portugal é complicado abdicar destes projectos. Mas uma vez que consegui arranjar apoios para esta corrida poderá que algo aconteça no futuro. Nada está definido mas há essa possibilidade.
O tempo passou a correr e tivemos de dar por encerradas as “hostilidades”. O bom ambiente foi uma constante e foi uma conversa deliciosa para quem como nós é fã do desporto motorizado. Ter a perspectiva de um piloto, que nos mostrou de forma clara e agradável o que é ser piloto é algo precioso. Agradecemos mais uma vez ao Carlos Alonso a disponibilidade que mostrou respondendo a todas as nossas perguntas. Agradecemos também ao Ricardo Mingosque proporcionou este feliz encontro, ao Ricardo Veiga pelo material que não soubemos usar devidamente, o que mostra claramente o nosso nível de profissionalismo. Foi um serão passado de forma espectacular no Autódromo Virtual de Vila Real.
Ao Carlos resta-nos desejar a maior sorte do mundo para a prova deste fim de semana e esperamos que regresse a competir a tempo inteiro, sendo certo que terá já uma forte falange de apoio a torcer por ele… O Chicane claro.
A equipa Chicane agradece ao piloto e deseja as maiores felicidades a Carlos Alonso.

Perguntas:

Fábio Mendes
Pedro Mendes
Carlos Mota
 
Montagem do texto:
Fábio Mendes
Pedro Mendes
 
Imagens:
Google.pt
Imagens cedidas pelo Carlos Alonso

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