O fim de um sonho (parte 1). O fim-de-semana mais negro da F1

tumblr_lkfmskQory1qfnf5yo1_500Já dizia António Gedeão, que o sonho comanda a vida. É a possibilidade de concretizar o sonho que nos faz lutar. Que nos faz sair da cama pela manhã cedo, que nos faz batalhar com todas as forças para que ele se torne possível.

A conquista de um sonho não é fácil nem rápida. Antes pelo contrário, é um processo demorado e muitas vezes ingrato. São por isso admiráveis as pessoas que lutam sem parar e que nunca desistem até atingirem o seu objectivo. Nem todos têm a força mental para o conseguir.

O mundo está cheio de histórias de pessoas que deram tudo que tinham para atingir o que sempre sonharam.

A 4 de Julho de 1960, em Salzburgo, nascia Roland Ratzenberger. Os anos passaram e ele começou a imaginar o seu sonho. Ser piloto de Formula 1. Quem nunca sonhou conduzir um carro daqueles a grandes velocidades. Quem nunca sonhou ir para o pódio e espalhar champanhe por toda a gente. Muitos provavelmente. Mas Ratzenberger quis que isso se tornasse realidade. E como tal tentou.

A sua carreira no desporto motorizado começou em 1983, na Formula Ford alemã. Em 85 ganhou o campeonato austríaco e da Europa central de fórmula Ford.

Em 1986 ganhou o festival Brands Hatch e na época seguinte passaria para a Fórmula 3.

Em 1987 participou em algumas corridas do World Touring Car Championship, num BMW M3 e em 88 no British Touring Car Championship também com um M3.

1989 seria o ano da sua entrada na Formula 3000. No mesmo ano participaria nas 24h de LeMans onde participou até 1993.

Participou também no Japanese Sports Prototype Championship.

Ratzenberger_1994_Imola_02_PHCEm 1994 finalmente, conseguiu atingir o seu objectivo de ser piloto de F1, assinando um contrato de 5 corridas com a Simtek, uma equipa nova no paddock.

O seu sonho tornava-se realidade. Tinha chegado à Formula 1. A categoria máxima do desporto automóvel. Mas com um contrato de apenas 5 corridas, o austríaco teria de mostrar o seu valor depressa, para não deixar fugir a oportunidade entre os dedos. E a consequente pressão era enorme. Quando se vive o sonho, não se quer sair de lá e ele não era excepção.

Na sua 1ª corrida em Interlagos não se conseguiu qualificar para a corrida. A 2ª corrida no Japão conseguiu um 11º lugar devido a sua experiência na pista de Aida.

No grande prémio de San Marino, na pista de Imola, tentando a sua qualificação para a corrida, Ratzenberger teve uma saída de pista, danificando a sua asa dianteira. Ao invés de regressar as boxes, o austríaco tentou outra vez uma volta para conseguir a qualificação. Na entrada da curva Villeneuve, a asa danificada parte-se e aloja-se debaixo do carro, fazendo com que o piloto perdesse o controlo, embatendo na parede a 314 Km/h, provocando a sua morte.

O seu sonho terminava ali de forma violenta e brutal.

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A sua morte foi em parte esquecida por toda a gente, pois no dia a seguir seria o Grande Senna a morrer em pista. Mas a morte de Ratzenberger deixou um legado importante. Durante o “briefing” antes da corrida, os pilotos acordaram entre si reformular a associação de pilotos, com Senna, Berger e Schumacher como directores. A associação tinha como objectivo pressionar as autoridades competentes para melhorar a segurança dos carros e das pistas, evitando assim mortes como a que tinha ocorrido.

Em 2003 a FIA tornou obrigatório o uso do sistema HANS (que se vê na parte traseira dos capacetes aqui à direita) para evitar assim ferimentos como os que sofreu Ratzenberger.

O sonho breve de Ratzenberger foi a prova que às vezes, a vida prega-nos partidas demasiado severas. Com apenas 3 corridas, o austríaco mal teve tempo de saborear a sua vitória ao chegar a F1. Nunca ninguém saberá se seria mais um piloto a passar por lá, ou se conseguiria vingar e mostrar o seu valor. E isso também não interessa. O sonho que o levou à morte, deixou algo que é de inestimável valor. O legado. Embora com um papel passivo, foi o seu final trágico que fez lembrar às pessoas que o piloto é mais que um gladiador, que põe a sua vida em risco de cada vez que se senta atrás de um volante. O piloto é um homem como todos nós, com família, amigos. Pessoas que não o querem ver partir. E como tal é necessário protegê-los. Nós também preferimos ver todos os pilotos sair ilesos, prontos para no próximo fim-de-semana lutarem entre si.

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Ilustração do HANS

 

Não queremos mais um fim-de-semana como o de Imola.

Fica aqui a nossa pequena homenagem a Roland Ratzenberger.

 

 

Fábio Mendes

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