F1: Puxem por eles!

foto: Lotus
foto: Lotus

Mais uma vez, David Coulthard afirmou publicamente que os pilotos estão descontentes com a F1. O ex piloto da McLaren e da Red Bull terá certamente fontes privilegiadas para afirmar isso. A relação de proximidade com vários pilotos e com a estrutura Red Bull facilitará o diagnóstico de Coulthard. Segundo o escocês, os pilotos não apreciam o facto de não estarem a ser puxados ao limite. As corridas assumem cada vez mais uma dimensão de gestão do carro, dos pneus e do combustível. Parece que se esqueceram que o que interessa são as ultrapassagens e as lutas roda com roda.

Fui defensor desta nova revolução da F1. Para mim fazia todo o sentido a categoria máxima ser também onde está a tecnologia de ponta. Se a tendência é a redução de motores e o aumento da eficiência, penso que faz sentido introduzir isso na F1. E pensei que os primeiros tempos seriam de óbvia adaptação, mas que com o andar da carruagem as boas corridas voltariam.

No entanto, aquilo que se vê é um retrocesso. A época de 2014 foi boa a meu ver. Emotiva com muitos motivos de interesse e incerteza pelo título até ao fim. Se tudo apontava que o espectáculo ia melhorar este ano, com a melhoria da Ferrari, a confirmação da Williams e a entrada da Honda, chegamos a Junho com o sentimento de desânimo. Afinal isto não melhorou.

foto: Force India
foto: Force India

As primeiras corridas são sempre numa toada morna e as pistas não ajudam. Guardo sempre a chegada à Europa e às pistas a sério para fazer o verdadeiro diagnóstico. E o circuito Gilles Villeneuve costuma dar sempre boas corridas. Mas a deste fim-de-semana foi tão sem sal que até a mim, acérrimo defensor da F1, me deu vontade de olhar para outro lado. Até o WTCC, que vinha a desiludir bastante, deu uma corrida boa e a F1 não foi capaz disso, numa pista com todas as condições para isso. E o diagnóstico pode ser feito agora… A F1 não evoluiu. A Mercedes domina como quer, Rosberg não tem cabedal para Hamilton, a Ferrari melhorou muito, mas apenas luta pelo último lugar do pódio e a Williams fez o favor de estragar tudo e não acompanhar a Ferrari. Se me dissessem “ok, vamos ter Hamilton vs Rosberg como no ano passado, Ferrari junta-se à Williams pelo 3º lugar numa luta acesa e a Red Bull tenta ficar com as sobras”… Parecia-me um bom cardápio tendo em conta o que aconteceu em 2014. Mas não. Saiu tudo ao contrário e a F1 está de novo a cair.

Tudo isto por causa das malfadadas alterações e restrições em demasia. Já dissemos anteriormente que a ideia de seguir o modelo do WEC não seria descabida (por falar nisso os rumores de entrada de mais marcas no campeonato multiplicam-se, enquanto que novos construtores para a F1, nem vê-los. Toda a gente foge da F1). Facilitar a entrada de novas marcas, aliviar as restrições, tornar a modalidade mais apelativa, tudo isso é necessário. Que construtor tem vontade de entrar na F1 quando vê uma Honda, que já tem muita experiência fazer figuras tristes, sem que a FIA diga “ esta malta está à rasca, vamos lá aliviar as regras no primeiro ano”. Ninguém no seu perfeito juízo entra numa competição para ser anedota. É preciso facilitar e adoçar a entrada dos novos construtores para serem competitivos o mais rapidamente possível.

pilotos_f1_gpaustralia_apEu gosto da parte tecnológica da F1, das inovações dos truques dos engenheiros… mas gosto mais de uma boa corrida e abdico da parte nerd  para ter uma boa luta, com pilotos a colocarem tudo que têm em pista. Sem pensar em gerir um carro. Não são gestores, nem engenheiros…são pilotos cuja função é ser mais rápidos que os outros. E se eles se aborrecem e andam a 300Km/h dentro dos carros, imaginem quem vê.

É preciso de facto repensar a F1. Eu dei-me ao trabalho de responder ao questionário da associação de pilotos (e acreditem que me deu luta, porque aquilo nunca mais acabava) porque acho sinceramente que foi dado um passo ao lado… Não digo que toda esta evolução não faça sentido… mas é preciso colocá-la num contexto que favoreça o espectáculo em pista.

É preciso que se pense mais na F1 do que nos bolsos. Que as equipas abdiquem todas das suas vantagens para dar um espectáculo condizente com a fama da F1. É preciso que os pilotos estreantes saiam dos carros e pensem “F*da-se isto mete muito medo”. É necessário que os pilotos que lá estão voltem a ter a aura de gladiadores destemidos para quem fazer curvas a 300 à hora é um modo de vida. É preciso colocar mais alma na F1. E menos engenharia se calhar.

 

Fábio Mendes

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