F1 – A Era Hamilton

 

Como tudo começou

tumblr_nfihpk6D9V1slfnhho1_500Corria o ano de 1991 quando Anthony Hamilton comprou um carro telecomandado ao seu filho de 5 anos. A paixão de Anthony pela velocidade já era conhecida e tinha tido origem no seu pai. Davidson Hamilton era conhecido como o destemido condutor de uma pequena vila piscatória na ilha caribenha de Granada. Condutor de autocarros, carros e motas, Davidson ainda hoje é conhecido como o homem mais rápido da ilha. Depois de emigrarem para Inglaterra, Anthony sempre soube que um filho seu iria partilhar a sua emoção e rejubilar com as loucas histórias de seu avô.

E assim foi, pois o pequeno Lewis adorou a prenda do pai. E aquilo que começou como uma pequena brincadeira rapidamente evoluiu para algo mais, quando Anthony vislumbrou o talento do seu filho. Lewis foi inscrito numa corrida infantil de carros telecomandados, onde dominou do princípio ao fim. A diferença para os restantes era de tal forma grande, que a única forma de Anthony saciar a vontade do menino era ao inscreve-lo nas competições seniores. A partir dai até ganhar o campeonato nacional aos 6 anos foi um pequeno salto. “Ele é rápido atrás de um telecomando… Será que também é atrás de um volante?”, questionou Anthony. As dúvidas foram dissipadas quando lhe comprou um kart pelo Natal.

 

Sonhos, Fast-food e um novo padrinho

 “No karting, alguns miúdos tinham mais dinheiro do que eu… Eu limitei-me a ser mais rápido do que eles”

03074574.jpgDos 8 aos 10 anos, Lewis dominou as diversas categorias até conseguir alcançar o Campeonato Nacional Britânico. São vários os relatos do miúdo que levava a melhor nos duelos com outros bem mais velhos. Tinha uma postura destemida e já lhe reconheciam uma das suas virtudes actuais: a sua aptidão natural para ser o mais rápido. Para manter vivo o sonho do seu filho, Anthony teve de investir todas as suas poupanças e hipotecar a sua casa para suportar os custos de competição no karting. Foi uma aposta arriscada a nível financeiro mas também a nível pessoal: uma vida passada na carrinha em viagem, percorrendo o pais em busca da próxima corrida. A sua infância é caracterizada por noites mal dormidas, fast-food na ementa habitual, pouco tempo para brincar e mais tempo a afinar.

Mas Lewis sabia que este era o estilo de vida que o iria levar à Formula 1, onde corria o seu ídolo: Ayrton Senna. Sofreu um rude golpe em 1994, quando o seu pai lhe contou da morte do piloto. Ao saber, correu para longe do pai, chorando sozinho para ninguém assistir. E nesse dia jurou que iria atingir o mesmo patamar que o piloto brasileiro.

Em 1995 durante uma cerimónia de entrega de prémios da Autosport, Lewis reconheceu Ron Dennis (na altura Director da McLaren) e fez questão de se apresentar: “Olá, eu sou o Lewis Hamilton e um dia vou correr pela McLaren!”. Este momento foi tão cativante para Ron que fez questão de se tornar seu padrinho no desporto motorizado. De 1998 a 2000, Lewis assegurou o título Europeu e Mundial de karting, tendo no palmarés o registo de campeão mais jovem de sempre aos 15 anos. Como o seu talento estava sempre à frente da categoria onde competia, passou rapidamente pela Formula Renault, Formula 3 e GP2, tendo ganho o título da última em 2006. A saída de Juan Pablo Montoya da McLaren abriu-lhe as portas para a Formula 1 no ano a seguir.

 

Chegar ao topo…

FOTO ERCOLE COLOMBO FOR BRIDGESTONE
FOTO ERCOLE COLOMBO FOR BRIDGESTONE

No seu ano de estreia, Hamilton foi colega do bi-campeão mundial Fernando Alonso. Mostrando que de novato só tinha o estatuto, o britânico demonstrou um à vontade tremendo com os complexos monolugares e mostrou que a cada corrida conseguia ser ainda mais rápido. Teve 9 presenças consecutivas no pódio, ganhando 4 GPs e deixando a luta em aberto até ao final. Terminou a época como o rookie mais bem-sucedido de sempre, num honroso 2º lugar, ex aequo com o Alonso e a um ponto do campeão Kimi Raikonnen. No ano seguinte, Hamilton melhorou o desempenho em pista, mesmo não tendo um carro tão equilibrado como o Ferrari de Filipe Massa. Acabou por conquistar o merecido título, não sem uma grande carga dramática, ao assumir a liderança do campeonato na última curva do último Grande Prémio (Interlagos), ao ultrapassar Yarno Trulli que se debatia com as condições molhadas da pista. A partir desse ano o grande circo mudou e com ele chegaram as unidades hibridas que proliferam até aos dias de hoje. A McLaren debateu-se para acompanhar a inovação, mas teve sempre no britânico a muleta necessária para produzir magia em pista e levar ao limite a capacidade do carro.

 

…E manter-se lá

foto in: fanpop.com
foto in: fanpop.com

Em 2013, Hamilton corta o cordão umbilical com a McLaren e abraça um novo projecto na Mercedes. Concluiu que a equipa britânica já não tinha mais nada para lhe oferecer e necessitava de um novo desafio para se auto-motivar e ser novamente campeão. Com a introdução de motores V6 associados a unidades hibridas, a Mercedes soube produzir um carro vencedor que tem dominado a Formula 1 nos últimos dois anos. Batendo regularmente Nico Rosberg num carro igual e aniquilando a restante concorrência, Hamilton mostrou ao mundo o que é ser rápido… e ir mais além.

Na corrente época, o inglês resolveu a sua principal fraqueza do ano passado: desempenho em qualificação. Este ano conquistou até ao momento 11 poles positions, contra 3 de Nico Rosberg. No ano anterior o alemão tinha levado a melhor com 11 poles contra 7. O efeito psicológico destas poles é ainda mais duro no colega de equipa, quando a maioria é obtida já a poucos segundos do final da Q3, deixando Rosberg sem argumentos para contrariar o sucedido.

Rainier Ehrhardt
Rainier Ehrhardt

Outro dos momentos-chave ocorreu no Mónaco, onde Hamilton em conjunto com a equipa, tomou a decisão de trocar de pneus por altura do safety-car. Esta má estratégia acabou por conduzi-lo ao 3º lugar. Noutros tempos, teríamos um Hamilton destroçado psicologicamente pelo sucedido, com reminiscências de frustração nas corridas seguintes. Tal não aconteceu: o britânico tornou-se um homem maduro, reconheceu a quota-parte de culpa no momento da decisão e disse que o Mónaco foi apenas um percalço que não iria afectar o resto da época. Na corrida seguinte no Canadá dominou da pole até ao fim.

Mesmo tendo arrancado da pole a maioria das vezes, existiram vários incidentes levaram o britânico a posições desconfortáveis. Em Silverstone tivemos uma pole comprometida pelo excelente arranque dos Williams e despromoção do Silver Arrow para a 3ª posição. Nos EUA, a falta de aderência do monolugar deixaram-no presa fácil para Ricciardo. Mas o espirito combativo do britânico mostra-nos que nessas alturas “é pedal no fundo” até recuperar. Para além disso, a sua maturidade permite-lhe andar no limite cada vez menos sujeito a erros, impondo um ritmo que mais ninguém no plantel consegue igualar.

foto: Mercedes
foto: Mercedes

E aquilo que realmente fez diferença no Hamilton de 2015 foi o seu estilo de vida. Abandonou a sua relação de 5 anos com Nicole Scherzinger, tornando-se presença constante de círculos sociais ligados ao mundo do entretenimento. Apresentou novas tatuagens, mudou a cor do cabelo, comprou super-desportivos, compareceu em várias acções do Make-A-Wish e ainda arranjou tempo para fazer surf, tocar piano e fazer jogging nos mais diversos pontos do globo. Toda esta exposição pública levou que muitos criticassem o seu estilo de vida excêntrico e despreocupado, achando que iria prejudicar aquilo que faz em pista. Muito pelo contrário: esta libertação pessoal permitiu-lhe encarar a vida de forma mais serena e “tornar-se um” consigo próprio. A magia que espalha na pista é um reflexo da felicidade que sente em ser o verdadeiro Hamilton como nunca antes foi.

 

A fibra de um campeão

foto in: thecarconnection.com
foto in: thecarconnection.com

As comparações com o mítico Ayrton Senna sempre existiram: piloto nervoso, com uma velocidade natural avassaladora e uma mentalidade competitiva implacável. No plano pessoal, a devoção a Deus e dedicação à família emulam a maneira de ser do malogrado brasileiro. Após o ano de estreia com Alonso, Hamilton dominou sempre os seus colegas de equipa, tanto na McLaren como na Mercedes. Enquanto Senna respeitava Prost e colocava-o no seu patamar, Hamilton nunca temeu Kovalainen, Button ou Rosberg.

Ao longo dos anos, soube gerir a impulsividade em pista que alguns dissabores lhe trouxeram, mas conseguiu canalizá-la de forma estratégica, dominando hoje a arte de saber quando atacar e quando esperar. Tornou-se exímio em qualificação, mostrando que o colega com um carro semelhante, não produz o mesmo. Desistir não faz parte do seu vocabulário e não suporta ver ninguém à sua frente. Tem como lema a mesma frase que outrora Ayrton disse: No que diz respeito ao empenho, ao compromisso, ao esforço, à dedicação, não existe meio-termo. Ou você faz uma coisa bem feita ou não faz”.

Em títulos, atingiu o patamar de nomes míticos como Niki Lauda (3 títulos), Jackie Stewart (3) e Ayrton Senna (3). Está bem perto de alcançar Sebastien Vettel (4) e ainda longe de Juan Manuel Fangio (5) e Michael Schumacher (7). Mas ficará na história como um dos pilotos mais empolgantes de sempre, criado para ser o mais rápido em qualquer carro ou circuito.

12out2014---lewis-hamilton-comemora-no-podio-apos-vencer-o-gp-da-russia-1413120128483_956x500Do meu lado, tenho a dizer:

– Obrigado Lewis, pelo empenho e dedicação que mostraste em todas as corridas até hoje. Obrigado pelos momentos empolgantes que criaste, permitindo a mim e ao meu pai vibrar em cada corrida, quando a nossa fé na modalidade estava a ficar abalada. Obrigado por todas as lutas em pista, quando mostraste que não estás apenas a cumprir calendário, mas focado unicamente no lugar de cima. E acima de tudo, obrigado por mostrares a todos em como devem acreditar nos seus sonhos, começando de baixo até chegar ao topo, quando apenas podemos contar com o talento que nasceu connosco. Espero no próximo ano estar a escrever a história do tetra-campeonato.

 

Marcos Gonçalves

 

 

 

 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.