CNC – Entrevista a Manel Fernandes

Manel Fernandes é o mais recente reforço no contingente dos CNC na categoria 1300. Estreou o seu novo projecto em Braga, o Ford Escort MK1 que a equipa ACF Motorsport pretende agora desenvolver. Mas antes de falar do Escort quisemos conhecer melhor a carreira do piloto de Vila Real.

 

A aventura de Manuel Fernandes no desporto motorizado começou aos 4 anos, quando começou a andar no seu kart:  “Toda a minha família está muito ligada às corridas e claro que isso passa para os mais novos como eu, que com 4 anos comecei a andar de kart até aos 8, quando finalmente pude competir a sério (as licenças só eram passadas aos 8 anos). Mas para mim foi uma eternidade, pois estar constantemente em contacto com a competição e não poder eu próprio competir custou muito na altura. Aos 8 anos comecei na Formula Sega em Balatar, onde os karts e os motores eram sorteados. Nesse primeiro ano, fruto da minha inexperiência não vencemos, mas estamos a falar de erros como estar a dar uma volta de avanço e perder a corrida ao passar um piloto atrasado. No final do ano ficamos arredados da vitória com um problema na pesagem, pois o peso mínimo regulamentar era 90Kg (piloto + kart) e na última pesagem estávamos com 89.8Kg. E embora o kart não pudesse ser mexido por ninguém sem ser da organização, o peso revelou-se inferior ao regulamentado, o que originou algumas confusões que já lá vão. Ficou no registo o 3º lugar nesse ano (2002).”

Fiz mais 2 anos em Baltar, passando depois para o nacional (Rotax). Nesse ano comecei com uma prova de atraso, por algumas indefinições no meu projecto mas quando iniciei o nacional, fiz o pleno nas 4 primeiras provas (pole e vitórias). Infelizmente nessa altura tive uma lesão grave, originada por uma queda de bicicleta e estive 3 meses no hospital, o que me impossibilitou de participar na última prova que me daria acesso garantido ao mundial de karts. Não competi até 2008 por recomendação médica e nesse ano ainda fiz a taça de Portugal, mas estava a chegar a uma idade em que precisava de outro tipo de apoio para seguir e isso não foi conseguido, o que nos levou a optar por fazer provas esporádicas até termos algo mais concreto.

 

Em 2012 fiz 18 anos e comecei a fazer ralis, mais especificamente o regional Norte. Nessa época fiquei em 3º e na época seguinte fiz mais alguns ralis e o Circuito da Boavista em Legends Cup, onde consegui o 4º lugar, mesmo com problemas mecânicos e com um carro de ralis sem preparação especifica para pistas. Depois fui campeão na categoria Diesel com um Hyundai Getz, mas devo admitir que preferia a velocidade aos ralis. O meu pai foi piloto de ralis durante 25 e sempre me puxou um pouco para esse rumo, mas na minha mente só a velocidade fazia sentido. Nos ralis sentia falta do confronto com os adversários, com as lutas em pista, algo que nos ralis não acontece.

Finalmente em 2015 surgiu o convite de uma equipa para fazer o Desafio Único num Punto e aceitamos, sendo uma boa experiência para nos preparamos para o futuro. Adquirimos o conhecimento para este ano montarmos a nossa estrutura e iniciarmos o projecto Escort, para além de termos um Punto alugado.”

 

 

A estrutura a que o piloto se refere é a ACF Motorosport, constituída pelo seu irmão (António Fernandes), que é agora o mentor do projecto, apoiado pelo seu pai (António Carlos Fernandes), cuja experiência é muito valiosa. “Neste momento está tudo a correr bem e dentro do planeado. Não tínhamos pensado dar assistência a pilotos de fora neste ano, mas o António Coelho e o Paulo Varge mostraram confiança total na nossa estrutura e aceitamos a proposta, com excelentes resultados até agora.”

 

Em relação ao projecto Escort. Manel Fernandes explicou a génese da aposta nesta máquina.

“O meu pai fazia ralis num Datsun 1200 no campeonato nacional de clássicos e nessa altura apareceu o Joaquim Jorge que com o seu Escort, que deu muito espectáculo na altura. O Joaquim Jorge passou a ser o meu ídolo na altura, juntamente com o meu pai e desde miúdo dizia que quando fosse grande queria ter o meu Escort. O início deste projecto passa também um pouco por realizar um sonho meu e do meu pai. A estreia correu bem, dentro do possível, pois o carro estava ainda “um pouco verde”, havendo aspectos que precisam ser melhorados. E por isso, a ida a Braga foi importante mesmo sem o motor que a equipa pretende colocar no carro.” Para Manel Fernandes o carro tem muito potencial mas precisa de tempo e de ser trabalhado para atingir o potencial que tem.

 

Para o futuro o piloto não descarta a hipótese de usar uma máquina TCR, não sendo para já a porta que parece estar mais aberta. O investimento que a família está a fazer nesta estrutura de competição tem de ser muito bem gerido e o piloto tem a humildade e a paciência de esperar pelo crescimento do projecto, para que então depois possa pensar noutros voos. Para já, a curto prazo a vontade do piloto (que se poderá tornar uma realidade) é acompanhar o seu primo Manuel Pedro Fernandes nos Abarth e fazer a categoria júnior. O convite já foi feito este ano mas o piloto deu primazia ao projecto Escort, que é o grande investimento da equipa neste momento. Mas para 2017 os Abarth são uma forte hipótese para Manel Fernandes, que entende que o seu futuro passa por provas no estrangeiro, pelo prestígio, pela maior facilidade em arranjar apoios e pela vontade de querer mostrar o seu valor noutras pistas e quem sabe, receber o devido reconhecimento.

 

Manel Fernandes assume que a falta de investimento que existe no desporto motorizado deve-se muito à falta de verdadeira paixão pelas corridas. “As pessoas gostam de corridas mas não é como antigamente. Aí sim as pessoas gostavam e interessavam-se pelas corridas. Hoje em dia é cíclico e agora que nos aproximamos das corridas, as pessoas gostam e entusiasmam-se, mas depois esquecem um pouco e assim os patrocinadores sabem que o retorno vai ser menor. Penso que será complicado conseguir isso, mas para que o desporto motorizado voltasse a ser o que era, a paixão das pessoas devia também ser o que era e, do meu ponto de vista, não o é. Nos ralis há mais isso e os fãs que vão ver rali têm mais paixão,. Já em relação à velocidade  não vejo isso da mesma forma. Em Braga, mesmo com divulgação e com bilhetes de borla, vi as mesmas pessoas nas bancadas. É verdade que falta promoção, mas faltam grelhas cheias de carros e corridas emocionantes para voltar a despertar a paixão e aí sim, tentar voltar a ter o que tínhamos. E tal como o futebol vive dos adeptos, as corridas e os circuitos precisam dos adeptos para sobreviver.”

 

A conversa continuou e chegamos à convivência entre os pilotos da “casa” e Manel Fernandes confessou-nos que começa cada vez mais a haver bom ambiente entre os pilotos. Ainda não é de uma forma geral mas começa-se a assistir a um ambiente saudável, algo que tem sido visível no paddock do Estoril em em Braga. No entanto o piloto foi franco o suficiente para dizer que esse espírito de camaradagem que se vive não é geral e que alguns pilotos não conseguem diferenciar o que acontece dentro e fora de pista, dando azo a comportamentos menos próprios. Mas enalteceu o espírito que a maioria dos pilotos têm e a união que se começa a verificar. E na conversa surgiu mesmo a ideia de colocar em todos os carros de Vila Real uma bandeira da cidade, uma forma de mostrar ao público o numero de pilotos da casa. Uma iniciativa que se avançar, poderá ser uma excelente forma de prestigiar o circuito pois a paixão por Vila Real é feita por fãs e também pelos pilotos da casa. 

Quando lhe perguntamos sobre o seu top 3 de pilotos nacionais, Manel Fernandes escolheu José Pedro Fontes,  Álvaro Parente e Pedro Salvador como os mais completos na sua opinião, tendo no entanto referido que se pudesse partilhar um carro com algum deles escolheria Pedro Salvador.

No top 3 dos melhores pilotos de sempre, coloca o Rei Senna, Hamilton e surpreendentemente Max Verstappen, não tendo dúvidas que o jovem da Red Bull será o melhor de todos os tempos, convicção que tem desde a altura que viu ao vivo o holandês nos karts quando se tornou um grande fã de Max.

 

Para Vila Real, o piloto pretende apenas desfrutar do momento, sabendo que a sua nova máquina está a dar os primeiros passos e que precisa de trabalho. Mas sendo Vila Real tudo pode acontecer e Manel Fernandes encara com um sorriso “sua” prova, querendo divertir-se e lutar pelo melhor lugar possível.

 

Foi mais de uma hora de conversa onde ficamos agradavelmente surpreendidos com a postura do piloto e a forma como vê as corridas. Depois de nos ter recebido da melhor forma possível no Estoril e em Braga, o piloto foi franco e mostrou uma forma  muito realista de ver as corridas e a competição. Quer que o projecto ACF Motorsport cresça da melhor forma possível, nem que para isso tenha de fazer alguns sacrifícios ao nível da sua carreira. Em relação à sua carreira, o piloto não esconde a vontade de tentar algo fora do país e mostra que tem planos para que isso aconteça já para o ano. Para já pretende fazer o que mais gosta que é pilotar um carro de competição seja ele qual for.

Agradecemos o tempo  que o Manel nos concedeu e desejamos as maiores felicidades ao piloto e à sua equipa.

 

Chicane Motores

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