Ser piloto é…

Quando somos miúdos todos temos vontade de ter empregos “fixes” no futuro. Astronauta, bombeiro, piloto… Imaginávamos como seria um dia na nossa profissão de sonho, sem nunca nos questionarmos se conseguiríamos atingir isso, pois nessa idade esse tipo de questões nem se coloca… quando somos miúdos somos capazes de tudo.  No entanto vamos crescendo e alguns sonhos vão-se esfumando naquilo que se estipulou chamar lei da vida, que nos tira uns sonhos e nos dá outros. Mas para nós, fãs do desporto motorizado, aquela vontade de ser piloto nunca desaparece completamente… Afinal todos nós temos um “Senna” desaproveitado dentro de nós, que com um pouco de treino conseguiria ser competitivo o suficiente. Pois claro! Na verdade todos temos potencial para ser pilotos. Ser bom piloto isso já é outra história.

 

Primeiro é preciso ter talento. Nisso não há muito a fazer… ou se tem ou não. Pilotar é muito mais do que acelerar, travar e virar um volante e só alguns predestinados são capazes de o fazer com a mestria suficiente para arrasar a concorrência. Se compararmos as voltas de um piloto muito bom e de um excelente estamos a falar de décimas de segundos o que na vida real não e nada… Mas na pista faz toda a diferença. E aquele extra que é necessário por vezes para conseguir uma pole nem sempre se consegue com trabalho… apenas com inspiração.

 

Depois é preciso ter coragem. Não estamos a falar da coragem de andar a 250km/h pois aí já é uma questão de gosto e dá sempre uma boa frase de engate. É um pouco como gostar de jogar à bola: sabemos que há o risco de levar com a bola entre as pernas mas nem isso é motivo para nos dissuadir de rematar a redondinha (uma rotura do tendão de Aquiles poderá colocar o cenário numa luz diferente… acreditem, não é nada bom). Neste caso referimo-nos à coragem de seguir a vida de piloto: Ter de arriscar, ter de procurar patrocinadores, ter de encarar muitas respostas negativas, ter de engolir muitos sapos. A verdade é que a vida de piloto tem muito glamour na tv mas na realidade não deve ser nada fácil. E como é um desporto que exige muito dinheiro. arriscar pode significar perder muito dinheiro. É ter também a noção que se vai viver uma vida completamente diferente dos outros. Com outras rotinas, outros objectivos, outras prioridades… que nem sempre são entendidas. Se para alguns escolher ser piloto  é fácil, para outros é preciso ter muito amor pelas corridas, sejam elas em 2 ou de 4 rodas.

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E aí é chegada a parte da força mental, o ponto principal que queria focar. É preciso ser capaz de lidar com tudo o que foi atrás dito e muito mais, além de ter de lidar com engenheiros, chefes de equipas, fãs, jornalistas. É preciso tentar ser o mais afável possivel pois só assim os fãs gostam de nós e só assim os patrocinadores abrem as carteiras (isso de ser Kimi não é para todos). É preciso lidar com as expectativas, sabendo que por vezes um bom resultado é a única forma de manter o sonho. E depois disso tudo é preciso limpar a cabeça, esquecer todos os problemas, que podem ser muitos, e concentrar-se na pista ou no troço, num ambiente onde numa fracção de segundos se tomam decisões certas… ou erradas.

Este texto vem a propósito do toque de Neuville no 3º dia de Rally da Suécia, em que se ouvem no onboard os gritos desesperados do piloto que sabe que ficou sem aquilo que era dele por mérito. Fez-me lembrar do que terá sentido Latvala nas inúmeras vezes que deixou escapar a vitória por entre os dedos. O que deverá ter sentido Rosberg ao longo destes 3 anos e a força mental que não foi necessária para enfrentar um piloto como Hamilton e conseguir vencer. A frustração de Alonso ao ter ficado por dois anos perto de concretizar o sonho do Tri, sem conseguir. A raiva que terá sentido Monteiro na corrida de Macau em que na última volta perdeu todas as hipótese de ganhar. A injustiça que Félix da Costa sentiu quando soube que não foi ele o escolhido para a Toro Rosso, assim como aconteceu com Álvaro Parente e Filipe Albuquerque. A dor de Paulo Gonçalves quando viu a sua moto em chamas.

 

Muitas vezes apenas nos lembramos da parte visível… os carros, as pit babes, o dinheiro, a fama. Mas além disso há muito trabalho, muito suor, muitas frustrações. E mesmo assim eles vão para a pista e vivem a vida a mais de 200 à hora, sempre com uma vontade férrea de vencer. Quando perguntaram a James Hunt qual era o segredo dele para ser rápido ele respondeu “Big Balls”. E é mesmo disso que se trata… Para ser piloto é preciso “tê-los no sítio”. Ser piloto é ser especial… É fazer o Confurco de lado sem perder a concentração ao ouvir os gritos da multidão; É andar a fundo em Vila Real, Mónaco ou Macau e não ter medo de bater contra as protecções… e se isso acontecer, voltar à pista. É subir a Falperra à chuva sem medo e com muitas atravessadelas; É andar sobre 2 rodas a uma velocidade estonteante sem medo de cair seja no MotoGP ou no Dakar. É esperar pelo momento certo para atacar ou fazer a trajectória certa para defender quando faltam 5 curvas para acabar e o adversário está tão perto que lhe podemos ver os olhos no retrovisor. Não sou piloto nem tenho capacidade para tal, mas penso não ser preciso sê-lo para apreciamos a sua arte.

Não são heróis, nem têm poderes mágicos… os pilotos são apenas tipos comuns com pouco juízo, um talento especial e uma vontade de vencer à prova de tudo. E talvez seja por isso que os admiramos tanto.

 

Fábio Mendes

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