F1 – Vettel: O indicador que mais irritou os fãs e agora nem por isso

O desporto é um meio ingrato pois só o tempo permite aos fãs entender a verdadeira dimensão de cada interveniente. Muitos foram os grandes nomes que foram durante muito tempo olhados de lado por serem dominadores e depois foi-lhes dado o devido valor. Na F1 acontece isso muitas vezes e quando assistimos mais ainda quando assistimos a uma época de grande domínio.

 

E foi um pouco o que aconteceu comigo e com Sebastian Vettel. Inicialmente não tinha grande apreço por ele mas ao longo do tempo a minha opinião foi mudando. E ontem vi um artigo onde Eddie Irvine o apelidava de arrogante e vaidoso e que nunca chegaria aos calcanhares de Schumacher. Primeiro ouvir Irvine acusar outros de arrogante e vaidoso dá vontade de rir. Mas o ponto da questão nem é esse.

Vettel irritou muita gente no tempo da Red Bull. Tinha o melhor carro e francamente tinha a equipa toda do seu lado enquanto Webber tornou-se numa espécie de actor secundário e íman para azares. Vettel venceu 4 vezes e tornou-se bem cedo um dos pilotos mais titulados de sempre da F1. O dedo em riste depois de cada vitória tornou-se na imagem de marca e num carimbo que por muitos era visto como arrogância, pois um chassis feito por Newey é meio caminho para se vencer e a tarefa parecia fácil (um dedo que quase perdeu numa corrida e que se calhar por isso se tornou imagem de marca). Episódios como o Multi 21 também pesaram e a luta desigual com Alonso que com um Ferrari inferior conseguiu dar-lhe luta em pelo menos 2 ocasiões.

Vettel tornou-se no puto mimado que tinha a sorte de estar na Red Bull e que graças a isso ganhava com facilidade. E isso nunca é bom.

Mas a história de Vettel não  merece ser tratada de forma tão ligeira. Na Formula BMW ADAC dominou de forma absoluta ( na segunda época 18 vitórias em 20 corridas), em Macau conseguiu o 3º lugar, na Formula 3 Euro Series foi vice campeão isto de 2003 a 2006. Em 2007 nem chegou a aquecer o lugar na Formula Renault 3.5 pois foi chamado para a F1, pela Sauber, onde já tinha sido piloto de testes em 2006. Foi em 2007 que se estreou, substituindo Kubica que tinha tido aquele horrível acidente no Canadá. Resultado? Primeiro ponto na F1 na sua primeira corrida. Fez mais 7 corridas pela Toro Rosso e arrecadou mais 5 pontos.

 

Em 2008 fez a época completa pela Toro Rosso e conseguiu a única vitória da equipa tornando-se no vencedor mais jovem de sempre da F1 (Verstappen já roubou esse recorde) e o mais jovem detentor da pole. Vettel nesse fim de semana fez um pouco o que Senna fez na Toleman em Mónaco.

No ano seguinte foi para a Red Bull e deu a primeira vitória à equipa também à chuva na China começando aí o domínio da Red Bull que durou 4 anos. Vencer 4 anos seguidos com um Alonso à perna pode parecer fácil mas não é.

É verdade que Vettel subiu muito cedo e foi o primeiro desta nova fornada de pilotos que mal saem dos Karts são logo chamados à F1. Mas Vettel soube lidar com a pressão e acima disso conseguiu apresentar resultados, mesmo com máquinas inferiores. Fê-lo na Toro Rosso e na Ferrari em 2015. Dizer que na Red Bull tinha a equipa toda do seu lado é uma verdade, mas será que Webber não teve também culpa? É que Ricciardo conseguiu fazer exactamente isso… mudar o foco da equipa, que deixou de ser de Vettel e passou a ser também dele. E quando Vettel chegou à Red Bull Webber já lá estava.

O que Vettel conseguiu foi com muito trabalho. Não considero que seja ele o mais talentoso do grid. Mas é um dos mais inteligentes e trabalhadores. Analisa todos os detalhes, estuda a sua máquina, os seus defeitos e virtudes e tira partido disso. O sistema Blown Difuser que deu grande vantagem à Red Bull era igual para Vettel e Webber. Webber nunca conseguiu tirar tanto partido disso enquanto Vettel adaptou o seu estilo para poder tirar máximo partido disso e assim conseguir vitórias fáceis. Foram fáceis porque trabalhou para que assim se tornassem. E isso se calhar nunca foi valorizado. Mesmo aquela vontade de querer fazer sempre a volta mais rápida, mostrava que ele queria mostrar que não era só o carro o segredo do sucesso… ele também era parte fundamental.

No primeiro ano na Ferrari ele andou de bloco de notas a tirar apontamentos de tudo, aprendeu a falar italiano (Kimi está lá pela segunda vez e as únicas palavras de italiano que deve conhecer são Pizza e Ferrari). Trabalhou para se adaptar à equipa, ao carro e tentou ele também mudar a equipa para que ela se tornasse melhor. Não é um Hamilton ou um Alonso com um talento quase infindável… Mas é o homem certo para tornar uma equipa dominadora a médio prazo. Não é um piloto que saiba lidar com os “apertos” do meio do pelotão e quando tem de recuperar posições nem sempre o faz com a classe de um Ricciardo por exemplo, mas quando lidera é um relógio suíço que não falha e raramente erra. E no que diz respeito a voltas rápidas, o seu número de poles não deixa dúvidas.

E Vettel tem aquilo que falta à F1… chama! No ano passado foi fortemente criticado por ter mandado à merda o director de prova. Foi uma atitude reprovável claro mas por outro lado foi uma atitude genuína de alguém que estava verdadeiramente frustrado. Vettel dá um pouco de pimenta nas entrevistas, com o seu sentido de humor e sem ele cada conferência torna-se num marasmo de frases feitas. Parece ser também muito acessível pela forma como se relaciona com os fãs, com a equipa. É disto que a F1 precisa… precisa de um Ricciardo, de um Vettel, de um Alonso mal humorado a lutar por vitórias, de um Hamilton pressionado e a colocar pressão. Quando Vettel aparece sabemos que não vamos ter um momento demasiado aborrecido.

Não gostava de Vettel. Mas aos poucos fui reconhecendo o seu trabalho, o seu talento,  a sua inteligência dentro e fora de pista. Os episódios menos positivos… todos os grandes pilotos os tiveram e são sempre provocados pela insaciável sede de vitórias. Vettel não precisa de vencer mais nada na F1 para ficar na história, mas se conseguir vencer pela Ferrari terá provado por duas vezes que nem só de talento puro se faz um campeão. Pela primeira vez este ano vou querer ver o dedo em riste mais vezes. E quanto à frase de Irvine que ele nunca chegará aos calcanhares de Schumacher… se calhar ele como fã do Barão Vermelho sabe disso e nem se importa pois já não tem o rotulo de Mini Schumi… Já é apenas Vettel o homem do dedo em riste. As coisas mudam muito na F1… até as opiniões. E uma coisa é certa… raramente se é campeão na F1 por acaso… muito menos 4 vezes.

 

Vettel em números

179GP

12 épocas

43 vitórias (24.02 %)

46 poles (25.70 %)

87 pódios (48.60 %)

4 vezes campeão do mundo de F1 e uma vez vice-campeão

 

Fábio Mendes

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