F1 – O mau momento de Bottas

No final da corrida de Sepang, Valtteri Bottas não sorriu. Não é nada de preocupante à primeira vista pois os finlandeses não são conhecidos por serem sorridentes em público e apenas os “ventos intestinais” de Ricciardo são capazes de provocar uma gargalhada ao reservado piloto. Mas Bottas era um homem derrotado e preocupado no final da prova. Levou mais de 50 segundos do seu colega de equipa e levou 20 de Vettel que… largou de último. Um piloto de uma equipa de top, não pode levar “calendários” destes por parte da concorrência directa.

 

Bottas foi escolhido no início deste ano para substituir Rosberg, que largou a F1 para apostar na carreira muito mais excitante de vlogger (são opções, não criticamos). Muitos colocaram dúvidas em relação à escolha mas o finlandês mostrou quer era a opção certa… até a pausa de Verão. O calor fez mal ao homem  e desde o GP da Grã-Bretanha a sua performance baixou.  Nas 9 primeiras provas do ano conquistou 2 poles, duas vitórias, e rodou sempre no top3. Apenas falhou o pódio por 2 vezes (Hamilton falhou 3) e estava a cumprir na perfeição o seu papel.

A partir daí as coisas começaram a complicar-se. Ainda conseguiu fazer uma boa recuperação em Silverstone, passando de 9º a 2º (contando com a preciosa colaboração das falhas nas borrachas dos Ferrari), na Bélgica foi 5º, em Singapura foi 3º (graças ao acidente na curva 1 que levou a maioria dos favoritos) e na Malásia foi 5º de novo. Pior que os resultados tem sido o andamento evidenciado em pista.

O comparativo com os seus colegas

Foi o próprio piloto a reconhecer que está a passar pela pior fase da sua carreira que começou em 2012. Nessa altura o seu colega de equipa era o mítico Pastor Maldonado enquanto que Bottas tinha acabado de chegar a uma Williams com muitos problemas. Nas 19 corridas em conjunto, o score foi de 8 – 11 para o venezuelano em corrida e de 12 – 7 em qualificação (vantagem para Bottas).

Felipe Massa foi o piloto que mais tempo fez dupla com Bottas e ficou ligeiramente atrás da performance do finlandês: 31 – 27 em corrida (vantagem Bottas) e 41 – 17 em qualificação (vantagem Bottas). Significa que quando comparado com um dos pilotos mais respeitados e experientes do grid como é Massa, Bottas conseguiu ser o melhor tanto em qualificação como em corrida.

Este ano o score está claramente a pender para Hamilton com 3-12 em corrida (vantagem Hamilton) e 4-11 em qualificação (vantagem Hamilton). Todos estes números incluem abandonos, independentemente de serem por culpa do piloto ou por falhas técnicas.

Em qualificação, o piloto rodou em média 0.2 segundos acima dos melhores tempos, média essa que duplicou na segunda metade da época, estando em média quase 0.5 seg do primeiro lugar. Em corrida tem feito em média mais 12 segundos que os vencedores (valores apreciados por alto, sem rigor estatístico).

É Bottas um mau piloto?

Bottas está longe de ser um mau piloto e a Mercedes não daria 10 milhões de Libras para receber um piloto que não dava garantias. O que acontece neste momento é que o carro que os pilotos têm à disposição é um animal de “difícil” trato. A Mercedes introduziu mudanças no pacote aerodinâmico do W08 mas estas não resultaram como se pretendia, de tal forma que Hamilton preferiu usar o pacote anterior. A própria afinação do carro teve um “parto duro” no último traçado, com a equipa a afirmar que colocaram em pista carros sub-viradores (com a frente a fugir) para poder poupar os pneus traseiros, que numa configuração mais neutra teriam um gasto excessivo.

Bottas vem de uma Williams que desde 2014 apresenta carros com bom equilíbrio mas pouco apoio aerodinâmico comparado com os Mercedes. O finlandês entendeu isso nos testes de Barcelona e admitiu que teve de mudar a sua abordagem, algo que volta a admitir agora. O piloto sabe o que tem de mudar para ser mais eficiente mas, como se entende não é uma tarefa fácil mudar o estilo de condução, algo que é no fundo a identidade do piloto. E para piorar a situação, tem de comparar tempos com Hamilton, um dos melhores pilotos de sempre e que está no auge da sua forma. Acresce a isso que o Mercedes é de tal forma complicado que por vezes a própria equipa não entende as diferenças de rendimento de umas pistas para as outras. Se numas pistas os Mercedes são inalcançáveis, noutras são completamente banalizados. E é nesse exercício que os pilotos tem de encontrar um equilíbrio, algo que Hamilton está já habituado a fazer (quantas vezes o britânico se queixou da afinação na sexta para depois sacar a pole no sábado), mas que Bottas estará ainda a tentar entender. E na verdade apenas nas últimas duas corridas esteve menos bem, o que coincidiu com as corridas em que os Mercedes mais sofreram.

Valtteri é um bom piloto e ao nível da sua capacidade, não deve nada a Rosberg. Mas claro que se comparar-mos com Hamilton o caso muda de figura. Mas é para já precipitado fazer o “funeral” ao finlandês que conseguiu mais um ano de contrato (será que por sentir que é uma solução temporária, enquanto a equipa espera pela oportunidade de ir buscar Verstappen ou Ricciardo, o seu rendimento está a ser afectado?) e por certo vai dar a volta aos resultados, quando chegamos agora a circuitos onde por norma se dá bem. Mas tem pela frente um desafio tremendo, tendo também a hipótese de mostrar que é capaz de se reinventar e ser competitivo em fases menos boas.

 

Fábio Mendes

 

Foto – Mercedes
Fontes: statsf1.com / skysportsf1 / motosport.com

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