F1 – A idade da reforma.

Foto: Williams
Foto: Williams

Os acontecimentos das últimas semanas vieram adensar ainda mais a nuvem negra que paira sobre a F1 e que todos os responsáveis teimam em ignorar. Surgem todas as semanas notícias que fazem torcer o nariz aos fãs e que obviamente não atraem pessoas que queiram começar a ver.

Todos dizem que a F1 está em crise. As equipas médias e pequenas passam por um mau bocado e o financiamento é curto. Mas será correcto dizer que a F1 está em crise? Será o termo “crise” bem usado neste caso?

Para chegar a uma conclusão basta referir alguns valores. Em 2006 a CVC comprou os direitos da F1 por quase 2 mil milhões de euros. No ano passado era estimado que o valor da F1 era de 12 mil milhões de euros e que a CVC já foi “buscar” 8.2 mil milhões (fonte: Forbes). Um desporto que faz girar tanto dinheiro pode dar-se ao luxo de dizer que está em crise?

Outros valores interessantes: a F1 vai buscar o dinheiro a vários sítios. Patrocinadores, direitos televisivos, aos honorários pagos pelos circuitos para receber as provas, e ao merchandising. E o valor que a F1 tem recebido ao longo dos anos nunca párou de aumentar. Basta ver por exemplo que para o circuito da Malásia receber o GP tem de pagar à volta de 67 milhões de euros. Abu Dhabi paga 66 e Singapura paga 65. Somando todos os honorários das pistas, direitos de tv, merchandising e patrocinadores são quase 2 mil milhões de euros por ano. Não vou continuar a falar de números mas este pequeno quadro dá a ideia clara que a F1 não tem problemas de dinheiro. Bernie pode dar-se ao luxo de nadar em notas como fazia o Tio Patinhas.

foto: BBC
foto: BBC

Então onde está o problema da F1? Infelizmente não tem a ver com dinheiro mas sim com um paradoxo… a modalidade mais avançada do mundo no que à tecnologia diz respeito, parou no tempo. Os homens que gerem os destinos dos V6 híbridos são os mesmos que há 20 anos geriam os destinos dos V12 atmosféricos. E infelizmente ainda não entenderam que o mundo mudou muito desde então.

Há 20 anos atrás a F1 era o topo. Era o desporto mais apetecido. Hoje em dia é vista por muitos como apenas mais uma competição. Num mundo global, há cada vez mais modalidades a ganhar peso e a F1, que passou por uma fase menos “interessante” no início do milénio, começa agora a ressurgir mas ainda é olhada de lado por muita gente. Mas como a máquina continua a facturar, ninguém parece notar a menor preponderância do Grande Circo. Mais uma vez, os fãs, aqueles que deveriam ser a parte mais importante da equação, são esquecidos. Quem, por exemplo, diz que não precisa do Facebook para mostrar a F1 não vive neste planeta ou não evoluiu com o resto do mundo. E são pessoas com esta visão que gerem a modalidade.

Bernie continua a usar os mesmos truques do passado e isso viu-se nas negociações com as pistas alemãs…“ou me dão o que eu quero ou vou-me embora”. No passado resultava bem, pois todos queriam a F1 e acabavam por aceitar as exigências ( funcionou nas últimas negociações com Monza), mas a Alemanha acabou de dar o primeiro golpe no velho britânico. Não cederam ao discurso de Bernie e abdicaram de receber a F1. Recusaram pagar milhões para receber uma corrida onde o vencedor é praticamente conhecido e onde se corre o risco de acabar apenas com 11 carros em pista (se fossem promotores da corrida de Melbourne não pensariam em querer de volta o seu dinheiro? Quem paga milhões tem de ter garantia de espectáculo). Recusaram dar milhões para depois ter de tratar de toda a organização, ter o trabalho todo para que os senhores da F1 cheguem, façam o seu espectáculo e partam sem deixar um tostão. Não quiseram receber uma prova onde, para ter algum retorno financeiro, teriam de colocar preços exorbitantes nos bilhetes. Isto num pais onde os espectadores vão poder assistir no mesmo fim-de-semana, no mesmo circuito, a provas como DTM, WRX, Porsche Carrera Cup, Audi TT cup, onde acção e competição são as palavras de ordem… Tudo isto com apenas um bilhete.

 

Foto: Lotus
Foto: Lotus

Bernie quer fazer da F1 “a sua festa”. Fecha a torneira às equipas pequenas para que sejam obrigadas a sair da competição. “Não precisamos de equipas que não se consigam financiar”. Será que os fãs querem ver a F1 com apenas 4 equipas em pista? Não nos parece. Mas a ideia parece ser claramente diminuir o número de equipas com quem dividir as receitas.

Falta abertura à F1, é preciso que ela chegue aos mais novos. É preciso que tenha conteúdos de fácil acesso, é preciso que os patrocinadores queiram investir na F1, sabendo que terão o retorno pelo dinheiro que vão investir. É claro que hoje em dia compensa mais investir numa equipa de futebol do que na F1, pois a bola tem mais espectadores. É este paradigma que precisa de ser revertido, para que as pessoas voltem a ver a F1.

É preciso que as equipas que mereçam recebam mais. Equipas como a Lotus, a Force India que têm trabalhado muito bem, mereciam receber mais por parte da FOM, para poderem crescer mais e assim ameaçar as equipas de topo. Em 2012 e 2013 a Lotus com metade do orçamento fez melhor que Mercedes, McLaren e Ferrari até. De que seriam capazes se tivessem mais dinheiro? A própria Force India já mostrou que consegue trabalhar com qualidade.Mas enquanto a F1 for demasiado elitista,as equipas vão ter sempre dificuldade em conseguir patrocinadores e como o dinheiro que vem da FOM não chega, só há duas soluções. Não gastar e não ser competitivo… ou arriscar, gastar o que não se tem e esperar que os resultados compensem. É neste limbo que as equipas vivem.

Quem manda na F1 tem de sair. Custa muito ver a F1 ir para países, com fama de prática de negócios menos claros e onde Bernie estende a passadeira vermelha a pessoas que não fazem boa publicidade. Custa ainda mais ver grandes pistas serem esquecidas para que o apetite voraz de quem come “à pala” da F1 seja saciado. Ver que a F1 vai para países como o Azerbaijão, Emirados Árabes Unidos ou Bahrein cuja a cota de adeptos de F1 deve ser tão grande como a de adeptos do Carcavelense (com todo o respeito pelo clube), não faz sentido. Ver investimentos gigantescos como as pistas da Turquia e da India serem simplesmente riscadas depois de todo o esforço e dinheiro gasto, mostra o fraco planeamento. É aflitivo ouvir que pistas como Monza, Spa e Silverstone podem não receber a F1, quando se viu claramente no ano passado que as pistas “clássicas” são aquelas que melhor espectáculo proporcionam. A F1 vive dos fãs e os fãs fazem-se nas pistas. Levar a F1 para longe de quem gosta da modalidade é um erro.

 

Bernie Ecclestone faced a fourth day of questioning at the high court.A F1 precisa de fazer o que sempre fez. Evoluir. Não ao nível da tecnologia mas sim da filosofia seguida por quem manda. Precisa de ideias novas, sangue novo. Precisa de ser ver livre de Bernie. É preciso que o velho se reforme de vez e que entregue a direcção da F1 a pessoas com visão de futuro e que queiram atrair novos fãs. É preciso que a F1 seja publicitada como deve ser. Que a ideia que as corridas são monótonas e previsíveis seja erradicada, pois até esse argumento é falso. Quem viu a época de 2014 não pode dizer que não teve emoção. É preciso que a F1 de uma vez por todas deixe de dar tiros nos pés.

 

 

Fábio Mendes

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